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Revitalizar os rios urbanos: utopia ou realidade?

A origem dos assentamentos humanos e a constituição dos primeiros vilarejos guardam relação direta com os cursos d’água, rios e córregos, que serviam como fonte para a alimentação e abastecimento, referência territorial, cultural, de transporte de mercadorias e pessoas. Portanto, a formação das cidades está intimamente relacionada com os rios, embora na atualidade muitos destes tenham se transformado em avenidas sanitárias e canais de esgotamento. Com a intensa concentração de pessoas nas cidades, hoje somos mais de 84% vivendo no meio urbano, os rios passaram a ser percebidos como limitadores do crescimento e fonte de problemas. Os diversos casos de enchentes e inundações, mau cheiro e até a necessidade de ampliação do sistema viário transformaram o rio em um dos grandes vilões da cidade.

 

Na tentativa de domar a natureza, realizamos inúmeras intervenções nos cursos d’água, suprimindo a vegetação das suas margens e pavimentando, concretando os canais e retificando o traçado original, enfim, adequando a natureza aos nossos interesses de planejamento e desenvolvimento urbano. Por conta disso, pagamos um preço elevado em nossa sociedade, que envolve a degradação ambiental e as diversas tragédias que acompanham todo o período chuvoso no Brasil. Aos poucos, o rio, palco da nossa civilização, presente na arte e cultura, vai se diluindo na paisagem, como se o desenvolvimento não pudesse conviver com a preservação ambiental.

 

Felizmente a percepção e consciência da população em relação às questões do meio ambiente e à limitação dos recursos naturais têm contribuído para uma mudança de atitude, levando a uma discussão sobre a renaturalização dos rios e córregos urbanos, elemento-chave no processo de revitalização urbana e resgate da qualidade de vida. A questão dos recursos hídricos, a vegetação e as matas ciliares, ou seja, todos os componentes naturais interagindo para garantir a convivência harmoniosa entre o homem e a natureza, resgatando o rio em nossa paisagem. Neste sentido, as intervenções urbanas que levem em consideração o redesenho a partir dos rios e cursos d’água naturais terão maiores chances de êxito e menores custos de infraestrutura. Este é o caso, por exemplo, do rio Don, localizado em Toronto, Canadá, envolvendo a população no plano de recuperação do rio urbano. Também o rio Los Angeles, nos Estados Unidos, que encontrava-se poluído e desde 2005 vem sendo revitalizado. No Brasil algumas experiências pioneiras, como o projeto Beira-Rio, em Piracicaba, indicam claramente a viabilidade e os benefícios do investimento na renaturalização e revitalização dos rios urbanos.

 

Por que não desenvolver projetos de boulevares, parques lineares, áreas para esporte e convivência ao longo dos rios urbanos, iniciando um processo de renaturalização e revitalização? Esta será uma boa plataforma para valorizar a cidade, incrementar a qualidade de vida e trabalhar pela nossa Belo Horizonte.

 

(*) Sergio Myssior, arquiteto e urbanista, é Vice Presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-MG), Conselheiro da AMDA e diretor da MYR projetos sustentáveis.


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